"Malandro que na minha cara der/Pode fazer testamento e se despedir
da mulher/Se tiver filhos, leve de recordação/Cara que mamãe beijou, vagabundo nenhum põe a mão."
Podemos
chamar de “coronelismo intelectual” a prática autoritária no campo do conhecimento. Este campo é
extenso, começa na pesquisa científica universitária e se estende pela sociedade como um todo, dos meios
de comunicação ao básico botequim onde ideias entram em jogo.
Coronelismo intelectual é
a postura da repetição à exaustão de ideias alheias. A reflexão só atrapalharia,
por isso é evitada.
Encarnação de prepotente eloquência, o paradoxo do coronelismo é
alimentar uma ordem coletiva de silêncio em que o debate inexiste, o culto da verdade pronta ou da ignorância
é a regra, bem como a apologia ao gesto de falar sem ter nada a dizer, que culmina no discurso tão vazio quando
maldoso da fofoca, versão popular do eruditismo.
Não há muita diferença entre a mesa de bar
e a mesa-redonda dos acadêmicos parafraseando qualquer filósofo clássico apenas pelo amor ao fundamentalismo
exegético.
Enquanto todos falam sem nada dizer, ajudados pelo jornalista que repete o que se entende pela sacrossantificada
“informação”, mercadoria da contra-reflexão atual, os coronéis podem comentar
que os outros é que não sabem nada e praticar o “discurso verdadeiro” em seus artigos estilo “mais
do mesmo”, moedinha cadavérica com que se enche o cofrinho das plataformas de medição de produtividade
acadêmica em nossos dias.
O coronelismo intelectual infelizmente segue forte na filosofia e nas ciências
humanas, na verdade dos especialistas, tanto quanto na dos ignorantes que se separam apenas por titulação ou
falta dela. Professores e estudantes, sábios e leigos, todos se servem metodologicamente dos frutos dessa árvore
apodrecida. A prática do pensamento livre que se autocritica e busca, consciente de sua inconsciência, seu próprio
processo de autocriação talvez seja a contraverdade capaz de cortá-la pela raiz.
Intelectual serviçal
Eis a cultura do lacaio intelectual, do bom serviçal sempre
pronto à reprodução do mesmo. Nela, a boa ovelha especialista em assinar embaixo as verdades do senhor
feudal que um dia as emitiu num ritual de sacralização já não é fácil de distinguir
do lobo. A semelhança entre o puxa-saco, o crente e o líder paranóico que o conduz revela a verdade do
mimetismo. Os seguidores dos líderes, de rabinho entre as pernas, latem para mostrar que aprenderam bem o refrão.
Abanam as asas ao redor da lâmpada esperando que ela também fique onde está, do contrário
não saberiam o que fazer.
As consequências do coronelismo em um país de antipolítica e anti-educação
generalizadas como este é algo ainda mais grave do que o medo de pensar. É o fato de que já não
se pensa mais. A ausência de debate não é medo de expor ideias, mas a falta delas. Inação
é o corolário da impossibilidade de mudar, porque o campo das ideias onde surge a vida já foi minado.
O coronel ri sozinho da impossibilidade de mudanças, pois ele ama a monocultura enquanto odeia o cultivo de ideias
diferentes ou de ideias alheias. O autoritarismo intelectual não é feito apenas de ódio ao outro, mas
da inveja de que haja exuberância criativa em outro território, em outra experiência de linguagem. Conservadorismo
é seu nome do meio.
Coronelismo não é simplesmente a zona cinzenta onde não podemos
mais distinguir o ignorante do culto, mas a política generalizada introjetada por todos – salvo exceções
– pela letal dessubjetivação acadêmica da qual somos vítimas enquanto algozes e que, no campo
do senso comum, surge como robotização e plastificação das pessoas entregues como zumbis aos mecanismos
do nonsense geral, que, é preciso cuidar, deve ser aparentemente desejável pela liberdade de cada um.
Contra a escravidão intelectual
somente um contradesejo pode gerar emancipação. A prática da invenção teórica, a
liberdade da interpretação e de expressão nos obrigam a ir contra os ordenamentos da ditadura micrológica
do cotidiano, em que a lei magna reza o “proibido pensar”. A direção, como se pode ver, parece que
só se encontra, atualmente, no desvio dos caminhos dados.